Terapia CAR-T no tratamento do câncer de mama: avanços e desafios dos novos ensaios clínicos

A terapia CAR-T mudou o tratamento de cânceres hematológicos nas últimas décadas, com taxas de remissão completa superiores a 80% em algumas neoplasias do sangue.
Pesquisadores e oncologistas agora tentam aplicar a mesma tecnologia ao câncer de mama, sobretudo às formas mais agressivas, como o triplo-negativo e o metastático.
Como funciona a terapia CAR-T no câncer de mama
A terapia CAR-T envolve quatro etapas de engenharia celular. Primeiro, os linfócitos T do próprio paciente são coletados por leucaférese. Depois, passam por modificação genética em laboratório, com a inserção do gene que codifica o receptor quimérico de antígeno (CAR).
O receptor permite que a célula T reconheça antígenos específicos na superfície das células tumorais. As células modificadas são expandidas em grande quantidade e reinfundidas no paciente.
No câncer de mama, os principais alvos em investigação são o HER2, superexpresso em cerca de 20% dos casos; a mesotelina, presente em até 67% das amostras de câncer triplo-negativo; e a Claudina 18.2, investigada em subtipos específicos. Escolher o alvo certo é uma das decisões mais difíceis no desenvolvimento dessas terapias.
Por que tumores sólidos são mais difíceis de tratar
O sucesso da terapia CAR-T em leucemias e linfomas não se repete automaticamente nos tumores sólidos.
O microambiente tumoral (TME) do câncer de mama é altamente imunossupressor. O tumor secreta fatores como TGF-β e IL-10, que inibem a atividade dos linfócitos T e recrutam células imunossupressoras, como macrófagos do tipo M2 e células T regulatórias. Além disso, o estroma tumoral forma uma barreira física densa que dificulta a infiltração e a persistência das células CAR-T no local da neoplasia.
Outro obstáculo crítico é a heterogeneidade antigênica: nem todas as células de um mesmo tumor expressam o mesmo marcador na mesma intensidade. Isso permite que células tumorais sem o antígeno-alvo escapem da vigilância imunológica e causem recaída.
Muitos antígenos estudados no câncer de mama, como HER2 e MUC1, também estão presentes em tecidos saudáveis, elevando o risco de toxicidade por efeito colateral “no alvo, fora do tumor”.
Ensaios clínicos e estratégias de nova geração
O campo avança rápido, e estudos de fase I já apresentam resultados.
No congresso ASCO 2025, a terapia C406, uma CAR-T autóloga direcionada ao HER2, mostrou uma taxa de controle da doença de 75% em oito pacientes com câncer de mama HER2-positivo, com toxicidades hematológicas gerenciáveis. Ensaios com células anti-mesotelina em pacientes com câncer de mama metastático HER2-negativo seguem recrutando participantes em centros como o Memorial Sloan Kettering Cancer Center.
Para superar as barreiras do TME, os pesquisadores desenvolvem estratégias combinadas e células de nova geração, as chamadas armored CAR-Ts. Essas células secretam citocinas imunomoduladoras, como IL-12 ou IL-15, diretamente no microambiente tumoral. Isso reprograma o ambiente imunossupressor e amplia a resposta antitumoral.
A combinação de CAR-T com inibidores de checkpoint imunológico, como anti-PD-1, também tem potencial para restaurar a atividade das células T e superar mecanismos de resistência.
Outra abordagem em estudo é a administração regional, com infusão das células diretamente no tumor ou em cavidades corporais específicas, o que aumenta a concentração local e reduz efeitos sistêmicos indesejados.
Comparativo dos principais alvos moleculares no câncer de mama
Alvo | Subtipo principal | Prevalência estimada | Status clínico |
|---|---|---|---|
HER2 | HER2-positivo | ~20% dos casos | Fase I com resultados promissores |
Mesotelina | Triplo-negativo (TNBC) | Até 67% dos TNBC | Fase I em andamento |
Claudina 18.2 | Subtipos específicos | Variável | Investigação inicial |
c-Met | Triplo-negativo | Variável | Fase I concluída (UPenn) |
MUC1 | Múltiplos subtipos | Ampla | Pré-clínico e fase inicial |
Desafios logísticos e econômicos no Brasil
A implementação da terapia CAR-T no Brasil enfrenta barreiras estruturais.
O processo ex vivo exige laboratórios com certificação GMP, cadeia de frio rigorosa e equipes especializadas em processamento celular. Poucos centros no país têm essa infraestrutura.
Uma única infusão pode custar mais de US$ 400 mil nos Estados Unidos, valor incompatível com o financiamento público do SUS.
A elegibilidade para os estudos em andamento também é restritiva. Em geral, o paciente precisa ter diagnóstico confirmado de câncer de mama com expressão do antígeno-alvo, histórico de pelo menos duas linhas de tratamento prévio e performance clínica adequada para suportar o protocolo de condicionamento e a infusão.
No Brasil, a participação exige acesso a centros de referência vinculados a protocolos aprovados pelo CONEP e pela Anvisa.
O avanço das tecnologias de CAR-T in vivo e de plataformas alogênicas, que não dependem de processamento individualizado, pode mudar esse cenário nos próximos anos, com custos menores e mais acesso.
Perguntas frequentes
Qual é o perfil de paciente com câncer de mama que pode participar de ensaios clínicos de CAR-T cell hoje?
Os critérios variam conforme o protocolo, mas geralmente envolvem diagnóstico confirmado com expressão do antígeno-alvo (como HER2 ou mesotelina), falha em pelo menos duas linhas de tratamento anterior e performance clínica compatível com o protocolo.
No Brasil, o acesso depende de participação em estudos aprovados pelo CONEP em centros de alta complexidade oncológica.
Por que a terapia CAR-T para tumores sólidos, como o de mama, é considerada mais difícil do que para leucemias?
Nas leucemias, as células tumorais circulam livremente no sangue e expressam antígenos uniformes e bem definidos, como o CD19. No câncer de mama, o tumor forma uma massa sólida envolvida por um microambiente imunossupressor que bloqueia a ação das células CAR-T.
A heterogeneidade dos antígenos tumorais e a barreira física do estroma dificultam a infiltração e a persistência das células modificadas, o que limita a eficácia dos modelos convencionais.
Quais são os principais efeitos colaterais observados durante a infusão das células modificadas em pacientes com câncer de mama?
Os eventos mais relatados nos ensaios clínicos incluem a síndrome de liberação de citocinas (CRS), com febre, queda de pressão e comprometimento respiratório em graus variáveis. Toxicidades hematológicas, como neutropenia e anemia, também são frequentes.
Em ensaios recentes com CAR-T anti-HER2, os efeitos foram predominantemente de grau leve a moderado, sem descontinuações ou mortes atribuídas ao tratamento.
Onde a ciência do câncer de mama encontra o futuro da imunoterapia
A terapia CAR-T no câncer de mama ainda está em pesquisa clínica, mas os primeiros resultados em humanos são promissores.
Para pacientes, médicos e gestores que acompanham o campo, ter acesso a informação de qualidade importa tanto quanto os avanços terapêuticos.
A Verdie é referência nacional em terapias celulares avançadas e acompanha de perto esse cenário, traduzindo evidências científicas globais em conteúdo estratégico para o contexto brasileiro.
Publicações relacionadas
Procurando algo?


