Especialização em aférese: o gargalo técnico da coleta de células para terapias avançadas no Brasil

setembro 24, 2026
Especialização em aférese

Sumário

A expansão das terapias celulares avançadas no Brasil depende de um ponto específico: a falta de profissionais com especialização em aférese para fins terapêuticos e de coleta de células mononucleares.

O debate público sobre CAR-T Cell costuma girar em torno de laboratórios, regulação e custo. A leucaférese, que vem antes de tudo isso, é a etapa mais frágil da cadeia. Sem uma coleta de alta qualidade, o processo de modificação genética posterior fica comprometido antes de começar.

A importância da aférese na jornada do paciente de CAR-T Cell

A aférese é o ponto de partida da cadeia produtiva do CAR-T Cell. Na leucaférese, são coletadas as células mononucleares periféricas do paciente, em especial os linfócitos T, que depois serão modificados geneticamente em laboratório para reconhecer e destruir células tumorais ou autorreativas.

Esse material é tecnicamente chamado de starting material, a matéria-prima do medicamento vivo que será produzido. A qualidade dessa coleta determina o restante do processo. Se os linfócitos T coletados apresentam baixa viabilidade, contaminação excessiva por outras populações celulares ou volume insuficiente, o laboratório de manufatura não consegue produzir o produto final dentro dos parâmetros exigidos.

O tempo entre a coleta e a reinfusão, chamado de vein-to-vein, é um dos principais indicadores de eficiência do processo. Qualquer falha técnica na etapa de aférese pode atrasar o tratamento de um paciente que, em geral, já esgotou outras opções terapêuticas. Em oncohematologia, um atraso costuma ser difícil de recuperar.

Desafios técnicos e operacionais nos centros de coleta brasileiros

A operação de um equipamento de aférese para coleta de células mononucleares vai muito além do conhecimento básico da máquina. Cada paciente oncológico apresenta condições vasculares, hematológicas e clínicas distintas, que exigem ajustes individualizados do fluxo sanguíneo, do volume processado e do protocolo anticoagulante.

Pacientes com histórico de múltiplos ciclos de quimioterapia costumam ter acessos venosos difíceis ou comprometidos, o que complica a obtenção de um fluxo adequado durante o procedimento. Nesses casos, a experiência do profissional na gestão de acessos difíceis e na decisão sobre catéteres centrais é o que garante a segurança e o sucesso da coleta.

A criopreservação imediata após a leucaférese é outra etapa que depende de protocolo rigoroso e execução precisa. O material coletado precisa ser processado, receber dimetilsulfóxido (DMSO) como crioprotetor e ser congelado em condições controladas no menor tempo possível. Qualquer desvio nesse processo compromete a viabilidade celular e pode inviabilizar a manufatura do produto final.

A intercorrência mais frequente durante a aférese é a hipocalcemia induzida pelo citrato, anticoagulante utilizado no circuito extracorpóreo. Parestesia perioral, câimbras musculares e, nos casos mais graves, arritmias e convulsões são manifestações que exigem reconhecimento rápido e intervenção imediata.

O fluxo sanguíneo lento, apontado como intercorrência clínica prevalente em estudos brasileiros com doadores de aférese, é mais um desafio em pacientes já debilitados pelo tratamento oncológico.

A lacuna na formação profissional e certificação

A especialização em aférese para fins de coleta de células destinadas a terapias avançadas exige um nível de competência distinto da hemoterapia convencional. Além de operar o equipamento, o profissional precisa raciocinar clinicamente sobre a estabilidade do paciente, antecipar intercorrências, dominar protocolos específicos de criopreservação e entender o impacto de cada decisão técnica na qualidade do starting material.

No Brasil, a atuação em aférese é multidisciplinar. Enfermeiros, biomédicos e médicos hematologistas e hemoterapeutas compõem as equipes dos centros de coleta. O COFEN, por meio da Resolução 629/2020, regulamenta a atuação do enfermeiro em hemoterapia e aférese, estabelecendo competências e responsabilidades específicas. No campo biomédico, a atuação na manipulação da máquina de aférese e no processamento celular também é reconhecida pelos conselhos de classe, com biomédicos atuando diretamente na coleta e no processamento de células para transplante de medula óssea e terapias avançadas.

A formação concentra o problema: há poucos cursos de pós-graduação lato sensu dedicados especificamente à aférese para terapias celulares avançadas no Brasil.

Os treinamentos disponíveis com frequência abordam a aférese em seu contexto transfusional clássico, sem aprofundamento nas especificidades da leucaférese para fins de manufatura de CAR-T. O resultado é uma lacuna entre o que a regulação exige e o que os profissionais encontram disponível para sua capacitação.

Centros de excelência como o Hemocentro de Ribeirão Preto e o Nutera concentram parte significativa do conhecimento prático disponível no país. Isso cria uma dependência geográfica: profissionais de outros estados têm acesso limitado a treinamentos práticos em ambiente real de alta complexidade, o que perpetua o gargalo.

Impacto econômico e logístico para hospitais e clínicas

A dependência de poucos especialistas em aférese para terapias avançadas limita a expansão da rede de centros certificados no Brasil. A tabela abaixo reúne os principais fatores limitantes e seus efeitos sobre a viabilidade dos centros:

Fator limitante Impacto direto Escassez de especialistas em aférese terapêutica Restrição geográfica dos centros de coleta habilitados Falta de cursos específicos de pós-graduação Dificuldade de capacitar profissionais em escala Concentração de expertise no eixo SP-Ribeirão Preto Custo elevado de transporte e logística para pacientes de outros estados Infraestrutura de criopreservação inadequada Risco de perda do starting material e falha na manufatura Alto turnover em centros de hemoterapia Dificuldade de acumular e reter expertise técnica especializada

Economicamente, uma falha na coleta tem um custo alto. Quando o starting material é inadequado ou inviabilizado após a leucaférese, todo o processo precisa ser reiniciado: nova preparação do paciente, nova linfodepleção em alguns casos, nova coleta e nova logística de transporte até o laboratório de manufatura. Para um paciente com doença em progressão, esse reprocessamento pode ser clinicamente inviável.

Hospitais que desejam se certificar como centros de coleta para terapias avançadas precisam de equipamentos, infraestrutura física e equipes treinadas e estáveis. A rotatividade de profissionais, comum em serviços de hemoterapia com alta demanda, é um risco adicional para a qualidade e a continuidade do serviço.

Normativas e segurança do paciente

No contexto da aférese para terapias avançadas, especialização técnica, segurança do paciente e qualidade do produto final estão ligadas entre si. A Anvisa regula essa cadeia por meio de normas que incluem as Boas Práticas no Ciclo do Sangue e as RDCs aplicáveis a medicamentos de terapia avançada, que estabelecem requisitos de qualificação de pessoal, documentação de processos e rastreabilidade de cada etapa.

A Resolução COFEN 629/2020 delimita a competência do enfermeiro especialista em hemoterapia e aférese, reconhecendo que o procedimento exige formação específica além da graduação. A norma só funciona, porém, se os cursos de especialização existentes oferecerem conteúdo compatível com as demandas das terapias celulares de nova geração.

A segurança do doador e do paciente durante a aférese depende da experiência da equipe. O reconhecimento precoce de hipocalcemia, a gestão de reações vasovagais, o monitoramento hemodinâmico em pacientes fragilizados e a decisão sobre interromper ou continuar o procedimento são julgamentos clínicos que os protocolos escritos não substituem, porque exigem competência técnica para interpretá-los em tempo real.

Perspectivas para superar o gargalo

Superar o déficit de especialização em aférese para terapias avançadas no Brasil exige ação em várias frentes ao mesmo tempo. No campo educacional, é preciso desenvolver programas de pós-graduação e treinamento prático voltados especificamente à leucaférese para fins de manufatura de CAR-T, com ênfase em viabilidade celular, criopreservação e gerenciamento de intercorrências em pacientes oncológicos.

No campo institucional, a criação de redes de referência técnica, nos moldes do que já existe com a Fiocruz e o Hemocentro de Ribeirão Preto, pode acelerar a transferência de conhecimento para centros em formação em outras regiões.

Parcerias entre hospitais universitários, hemocentros e centros de terapia celular são a forma mais eficiente de democratizar a expertise sem depender exclusivamente de formação centralizada.

A certificação de novos centros de coleta em regiões além do eixo SP-RJ depende disso. Sem profissionais capacitados, nenhuma infraestrutura física ou aprovação regulatória garante a segurança do paciente e a qualidade do starting material que sustenta a cadeia do CAR-T Cell.

Perguntas frequentes

Por que a especialização em aférese é considerada o maior gargalo para as terapias avançadas?

A coleta de células para terapias gênicas exige padrões muito superiores aos de uma coleta transfusional convencional. A pureza e a viabilidade dos linfócitos T coletados determinam diretamente a capacidade do laboratório de produzir um medicamento eficaz e seguro. Sem profissionais treinados para otimizar o rendimento celular, gerenciar intercorrências em pacientes fragilizados e executar protocolos rígidos de criopreservação, o risco de perda do material biológico é alto. O resultado é atraso no tratamento de pacientes que, em muitos casos, não podem esperar.

Quais profissionais podem se especializar em aférese para atuar com CAR-T Cell?

No Brasil, a atuação é multidisciplinar. Enfermeiros com especialização em hemoterapia, biomédicos com habilitação em análises clínicas e hematologia, e médicos hematologistas e hemoterapeutas são os profissionais que atuam diretamente na leucaférese. Cada categoria tem sua competência regulamentada pelos respectivos conselhos de classe e sociedades profissionais. A especialização específica em aférese terapêutica, com foco em terapias celulares avançadas, é o que prepara esses profissionais para os desafios clínicos e técnicos do CAR-T Cell.

Quais são os principais riscos técnicos durante uma coleta de células mononucleares?

Os principais desafios incluem a toxicidade por citrato, que se manifesta como hipocalcemia com parestesia, câimbras e, nos casos graves, comprometimento cardiovascular. O fluxo sanguíneo lento, frequente em pacientes com acessos venosos comprometidos por múltiplos ciclos de quimioterapia, é outra intercorrência relevante que pode reduzir o rendimento da coleta ou exigir sua interrupção. A instabilidade hemodinâmica em pacientes debilitados requer monitoramento contínuo e capacidade de intervenção rápida por parte da equipe especializada.

Formação, segurança e acesso: onde a Verdie entra nessa cadeia

A viabilização do CAR-T Cell no Brasil depende de cada elo da cadeia, e a aférese é o primeiro deles. Centros de saúde que desejam se estruturar para oferecer terapias celulares avançadas precisam de orientação técnica especializada desde a etapa da coleta até a gestão regulatória e a capacitação das equipes.

A Verdie apoia hospitais, clínicas e gestores de saúde que estão construindo ou expandindo suas capacidades em terapia CAR-T Cell no Brasil. Com expertise em toda a cadeia de produção e nos requisitos técnicos e regulatórios para certificação de centros, a Verdie oferece orientação sobre a terapia CAR-T Cell para transformar infraestrutura em resultado clínico. Entre em contato para saber como estruturar sua unidade com segurança e dentro dos requisitos técnicos e regulatórios.

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