Células CAR-T para esclerose múltipla: o que mostram os estudos fora da oncologia?

setembro 26, 2026
Células CAR-T para Esclerose Múltipla

Sumário

A terapia com células CAR-T nasceu no contexto da oncologia, especialmente no tratamento de cânceres hematológicos como linfomas e leucemias. Nos últimos anos, a ciência começou a testar essas células reprogramadas geneticamente também em doenças autoimunes, e a esclerose múltipla está entre os alvos mais promissores. Os dados ainda são iniciais, mas o potencial já desperta atenção de especialistas.

O que são as células CAR-T e como elas se adaptam à esclerose múltipla

As células CAR-T são linfócitos T do próprio paciente modificados em laboratório para reconhecer e destruir alvos específicos. Na oncologia, esse alvo é a célula tumoral. Na esclerose múltipla, o alvo é o próprio sistema imunológico em mau funcionamento.

Na doença, células B autorreativas atacam a mielina, a bainha protetora dos neurônios. A abordagem CAR-T programa os linfócitos T para identificar e eliminar essas células de defesa disfuncionais, interrompendo o processo inflamatório na origem. A ideia é “resetar” o sistema imune de forma precisa e duradoura, algo que os tratamentos convencionais ainda não conseguem fazer de maneira eficaz.

Mecanismo de ação na esclerose múltipla

Na esclerose múltipla, a engenharia genética das células CAR-T é direcionada principalmente a antígenos presentes nas células B, como o CD19 e o BCMA. Esses marcadores são expressos pelas células B autorreativas que infiltram o sistema nervoso central e sustentam a inflamação crônica.

Diferente dos anticorpos monoclonais convencionais, que atuam no sangue periférico, as células CAR-T migram para o líquor e para o próprio tecido nervoso. Isso é especialmente relevante na esclerose múltipla progressiva, onde grande parte da inflamação ocorre em compartimentos do sistema nervoso central inacessíveis às terapias tradicionais. Ao reconhecer o alvo, as células CAR-T liberam perforinas e granzimas, destruindo as células B patogênicas de forma direta e sustentada.

Evidências científicas e estudos clínicos recentes

A pesquisa com células CAR-T para esclerose múltipla ainda está em estágios iniciais, e nenhum resultado deve ser interpretado como definitivo. Ainda assim, os dados publicados até agora são encorajadores.

Dois pacientes com esclerose múltipla progressiva tratados com a terapia CD19 CAR-T apresentaram perfil de segurança aceitável, com expansão das células CAR-T detectada no líquor sem sinais clínicos de neurotoxicidade.

Em um dos casos, houve redução no número de bandas oligoclonais no líquor, de 13 para 6, sustentada ao longo do acompanhamento, enquanto a produção de anticorpos intratecais também diminuiu após a infusão.

Os primeiros ensaios clínicos norte-americanos com células CAR-T para esclerose múltipla iniciaram recrutamento em 2024, o que amplia as perspectivas para essa abordagem em doenças neurodegenerativas autoimunes. Paralelamente, um estudo de fase 1 conduzido no Hospital Tongji, na China, tratou cinco pacientes com esclerose múltipla progressiva usando células CAR-T anti-BCMA, com síndrome de liberação de citocinas de grau 1 como único evento adverso relevante e evidências de depleção de plasmócitos nos compartimentos do sistema nervoso central.

Formas remitente-recorrente e progressiva: resultados diferentes

A terapia CAR-T se comporta de forma diferente nas formas da esclerose múltipla. Na forma remitente-recorrente, caracterizada por surtos e períodos de remissão, a atividade inflamatória é mais acessível às terapias modificadoras da doença existentes, e o papel das células CAR-T nela ainda precisa ser delimitado em estudos específicos.

Já nas formas progressivas (primária e secundária), onde há progressão contínua de incapacidade e inflamação compartimentalizada no sistema nervoso central, o interesse é maior. A terapia CAR-T surge como alternativa para superar as limitações dos tratamentos modificadores da doença nas formas progressivas, onde a inflamação no sistema nervoso central frequentemente não responde às abordagens disponíveis. Os ensaios atuais estão focados nesse perfil de paciente.

Comparativo: células CAR-T vs. outras abordagens para doenças autoimunes

Característica

Anticorpos monoclonais (anti-CD20)

Transplante de medula óssea

Células CAR-T

Mecanismo

Depleção de células B no sangue

Reconstituição imune global

Depleção precisa de células B patogênicas

Acesso ao SNC

Limitado

Parcial

Demonstrado no líquor

Toxicidade esperada

Moderada

Alta (regime mieloablativo)

Em avaliação (perfil inicial favorável)

Duração do efeito

Requer doses contínuas

Potencialmente duradouro

Em investigação

Estágio de desenvolvimento

Aprovado e disponível

Disponível em centros especializados

Fase 1 e 2 de ensaios clínicos

Segurança e tolerabilidade nos estudos iniciais

Um dos aspectos mais acompanhados nos estudos é o perfil de segurança. A preocupação central é a neurotoxicidade, dado que as células CAR-T são infundidas em pacientes com doença neurológica estabelecida. Nos dois pacientes tratados com KYV-101, não foram observados sinais de síndrome de neurotoxicidade associada a células efetoras imunes (ICANS), mesmo com a presença e expansão das células CAR-T detectadas no líquor.

Esses achados indicam que a terapia pode ser administrada com segurança razoável nessa população, ao menos nos casos relatados. Dito isso, estudos maiores e com maior tempo de seguimento são necessários antes de qualquer conclusão sobre eficácia e segurança a longo prazo, e a monitorização neurológica contínua segue essencial para detectar tanto neurotoxicidade aguda quanto complicações tardias.

O que ainda está em aberto

A terapia CAR-T na esclerose múltipla ainda está em fase inicial, com incertezas sobre a seleção do antígeno ideal, o design celular mais adequado, a segurança e a eficácia a longo prazo. Não existe, até o momento, qualquer produto aprovado por agências regulatórias para essa indicação.

As questões em aberto incluem a duração do efeito terapêutico, o melhor alvo molecular, a necessidade de infusões repetidas e os critérios de elegibilidade mais adequados. O campo avança rapidamente, mas os resultados ainda exigem cautela.

Perguntas frequentes

As células CAR-T podem curar a esclerose múltipla ou são apenas um controle de sintomas?

Não há resposta definitiva ainda. A hipótese científica é que a eliminação das células B autorreativas possa interromper o processo inflamatório de forma duradoura, o que seria qualitativamente diferente de apenas controlar sintomas. Alguns pacientes tratados em estudos iniciais mostraram estabilização da progressão e redução de marcadores inflamatórios. No entanto, ainda não existem dados de longo prazo suficientes para afirmar que a terapia é curativa. Todos os resultados atuais são preliminares e provenientes de poucos casos.

Qual a diferença entre o transplante de medula óssea clássico e a terapia CAR-T para doenças autoimunes?

O transplante autólogo de células-tronco hematopoéticas busca reconstituir o sistema imune como um todo, após destruição do sistema imunológico existente com quimioterapia de alta dose. A terapia CAR-T, por sua vez, atua de forma mais direcionada, eliminando especificamente as células B autorreativas sem necessariamente exigir um regime mieloablativo completo. O perfil de toxicidade tende a ser diferente, e o grau de condicionamento (linfodepleção) nas abordagens CAR-T para autoimunidade costuma ser menos intenso do que no transplante clássico. Ambas as abordagens ainda estão sendo comparadas em estudos.

Quem são os pacientes elegíveis para participar de protocolos de pesquisa com CAR-T para esclerose múltipla atualmente?

Os estudos em andamento focam principalmente em pacientes com formas progressivas da doença (primária ou secundária progressiva) que não responderam adequadamente às terapias modificadoras disponíveis. Em um dos ensaios ativos nos Estados Unidos, os critérios incluem diagnóstico de esclerose múltipla progressiva confirmado, pontuação entre 3,0 e 7,0 na escala de incapacidade EDSS, e evidência documentada de progressão da doença nos dois anos anteriores à inclusão. A elegibilidade é avaliada individualmente por equipes especializadas nos centros condutores dos ensaios.

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