Avanços no mieloma múltiplo: um guia sobre os diferentes produtos de CAR-T Cell aprovados no Brasil

junho 6, 2026
diferentes produtos de CAR-T Cell

O mieloma múltiplo é um câncer das células plasmáticas da medula óssea. Ele se caracteriza por recaídas frequentes a cada linha de tratamento convencional. Para pacientes que já esgotaram múltiplas opções terapêuticas, essa dinâmica cria uma lacuna crítica onde a doença avança sem resposta adequada.

É exatamente nessa lacuna que os diferentes produtos de CAR-T Cell aprovados no Brasil pela Anvisa representam um marco clínico relevante. Este guia apresenta os produtos disponíveis, seus mecanismos de ação, perfis de segurança e o que médicos e pacientes precisam saber para acessar essa tecnologia no país.

O cenário atual do mieloma múltiplo no Brasil

O mieloma múltiplo representa cerca de 10% dos cânceres hematológicos no Brasil. A estimativa é de aproximadamente 7.600 novos casos por ano no país.

A doença afeta plasmócitos da medula óssea, comprometendo a produção normal de anticorpos e células sanguíneas. Os pacientes desenvolvem anemia, dor óssea intensa, fraqueza e maior risco de infecções graves.

A característica mais desafiadora do mieloma é seu padrão de recaída progressiva. A cada linha de tratamento, o intervalo livre de doença tende a encurtar. Para pacientes refratários ou recidivados após múltiplas linhas, as opções convencionais se tornam progressivamente menos eficazes.

A terapia CAR-T surgiu como uma alternativa para preencher essa lacuna. Ela utiliza células T do próprio paciente, geneticamente modificadas para reconhecer e destruir células tumorais que expressam o antígeno BCMA, presente na superfície das células do mieloma.

Idecabtagene vicleucel: o primeiro CAR-T para mieloma aprovado no Brasil

O idecabtagene vicleucel (ide-cel), comercializado como Abecma, foi desenvolvido pela Bristol-Myers Squibb. Trata-se de uma terapia autóloga direcionada ao BCMA, administrada em dose única por infusão intravenosa.

A Anvisa aprovou o Abecma em março de 2024 para pacientes adultos com mieloma múltiplo recidivado ou refratário após a primeira recaída. A aprovação regulatória foi embasada nos dados do estudo de fase 3 KarMMa-3.

Nesse estudo, 386 pacientes foram avaliados comparando o ide-cel a regimes padrão de tratamento. Os resultados mostraram redução de 51% no risco de progressão ou morte. A taxa de resposta global foi de 71% no grupo tratado com ide-cel, em comparação a 42% no grupo controle.

Entre os efeitos adversos mais relevantes estão a síndrome de liberação de citocinas (CRS), que ocorreu em qualquer grau em cerca de 84% dos pacientes, e toxicidades neurológicas, observadas em aproximadamente 18% dos casos. A maioria desses eventos foi manejável com suporte clínico adequado em centros especializados.

Ciltacabtagene autoleucel: estrutura de ligação dupla ao BCMA

O ciltacabtagene autoleucel (cilta-cel), comercializado como Carvykti pela Janssen, foi o segundo CAR-T aprovado pela Anvisa para mieloma múltiplo, em março de 2022. Posteriormente, em 2024, a indicação foi ampliada para pacientes após a primeira recaída em contexto de refratariedade à lenalidomida.

O cilta-cel apresenta uma diferença estrutural importante em relação ao ide-cel. Seu receptor quimérico possui dois domínios de ligação ao BCMA, o que intensifica o reconhecimento das células tumorais e potencialmente contribui para respostas mais profundas e duradouras.

Os dados do estudo CARTITUDE-4 avaliaram 419 pacientes com mieloma refratário à lenalidomida após uma a três linhas de tratamento. O cilta-cel demonstrou redução de 59% no risco de progressão ou morte, com taxa de resposta global superior a 84%.

Dados apresentados no congresso EBMT 2025, conforme relatado pelo Dr. Jayr Schmidt, hematologista do A.C. Camargo Cancer Center, indicaram que um estudo de vida real realizado na Alemanha demonstrou superioridade do cilta-cel em taxa de resposta e sobrevida em comparação ao ide-cel, reforçando os resultados dos estudos clínicos pivotais.

Comparação técnica entre os produtos disponíveis no Brasil

Embora ambos os produtos sejam autólogos e direcionados ao BCMA, existem diferenças relevantes em seu perfil que podem orientar a decisão clínica.

Característica

Ide-cel (Abecma)

Cilta-cel (Carvykti)

Fabricante

Bristol-Myers Squibb

Janssen (J&J)

Domínios de ligação ao BCMA

Único (scFv)

Duplo (nanobodies)

Estudo pivotal

KarMMa-3

CARTITUDE-4

Taxa de resposta global

71%

84,6%

Redução de risco de progressão

51%

59%

CRS (qualquer grau)

~84%

Frequente, manejável

Neurotoxicidade

~18%

Inclui ICANS e eventos tardios

Aprovação Anvisa

Março de 2024

Março de 2022

É importante destacar que comparações diretas entre os produtos devem considerar as diferenças nas populações dos estudos. A escolha deve ser individualizada, com base no histórico clínico, comorbidades e avaliação do hematologista responsável.

A jornada do paciente e a infraestrutura necessária

O processo de tratamento com CAR-T começa pela leucaférese, procedimento que coleta células T do sangue do paciente por meio de uma máquina especializada. Essas células são então enviadas ao laboratório de fabricação certificado, onde são modificadas geneticamente para expressar o receptor CAR direcionado ao BCMA.

Após a fabricação, o produto retorna ao centro tratante para a infusão. Antes da aplicação, o paciente realiza a linfodepleção, um protocolo de quimioterapia de condicionamento que cria espaço imunológico para as células CAR-T se expandirem.

Após a infusão, é exigido monitoramento rigoroso, geralmente por pelo menos 14 dias no ambiente hospitalar. O paciente deve permanecer próximo ao centro tratante por períodos adicionais para acompanhamento de toxicidades, como CRS e neurotoxicidade.

A Anvisa exige que os centros que oferecem essas terapias possuam certificação específica, incluindo equipe treinada em manejo de CRS e acesso imediato a UTI. No Brasil, poucos centros atualmente detêm essa habilitação, o que concentra o atendimento em grandes hospitais de referência.

Acesso, desafios e pesquisa nacional

O acesso às terapias CAR-T no Brasil ainda é significativamente limitado. A maioria dos pacientes que recebeu o tratamento até hoje o obteve por meio de decisões judiciais. Uma pesquisa da entidade UNIDAS mostrou que 85% dos casos foram acessados pela via judicial.

A ANS não incluiu as terapias CAR-T na cobertura obrigatória dos planos de saúde, o que gera negativas frequentes e prolonga o tempo até o início do tratamento, com impacto direto nos resultados clínicos. O custo do tratamento representa um obstáculo central para a incorporação no sistema suplementar e no SUS.

No âmbito da pesquisa nacional, instituições como a Fiocruz, o Instituto Butantan e o Hemocentro de Ribeirão Preto conduzem iniciativas de desenvolvimento de produtos CAR-T brasileiros. Esses esforços visam reduzir a dependência de fabricação externa e potencialmente ampliar o acesso no futuro.

Perguntas frequentes

Quais são os critérios básicos para um paciente de mieloma múltiplo ser elegível ao tratamento com diferentes produtos de CAR-T Cell no Brasil?

O paciente deve ter mieloma múltiplo recidivado ou refratário e ter realizado pelo menos uma ou mais linhas de tratamento prévias, incluindo agentes imunomoduladores, inibidores de proteassoma e anticorpos monoclonais anti-CD38, conforme os critérios específicos de cada produto aprovado pela Anvisa. A elegibilidade final é determinada pelo hematologista, levando em conta o estado clínico geral, comorbidades, histórico de tratamento e performance status do paciente.

Qual a principal diferença entre o idecabtagene vicleucel e o ciltacabtagene autoleucel em termos de administração e resposta?

Ambos são produtos autólogos administrados em dose única por infusão intravenosa, seguindo protocolo de linfodepleção. A diferença estrutural central está no receptor CAR: o ide-cel utiliza um único domínio de ligação ao BCMA, enquanto o cilta-cel emprega dois domínios de ligação, o que confere maior afinidade ao antígeno tumoral. Nos estudos clínicos, o cilta-cel demonstrou taxas de resposta globalmente superiores, embora populações distintas dificultem a comparação direta.

Como o médico ou instituição pode se credenciar para oferecer estas terapias celulares avançadas?

Os centros tratantes precisam atender a critérios rigorosos estabelecidos pela Anvisa e pelos fabricantes, que incluem certificação da equipe multiprofissional, infraestrutura para manejo de toxicidades agudas, acesso a UTI e protocolos internos de monitoramento. O processo envolve treinamento específico e habilitação pelo fabricante do produto. Hospitais de oncohematologia de referência, como o A.C. Camargo, Hospital Albert Einstein e centros universitários especializados, são exemplos de instituições que podem buscar ou já possuem essa certificação.

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