A Terapia CAR-T pode se tornar acessível?

Oferecendo tratamento personalizado que pode atacar células tumorais de forma altamente específica a terapia Car-T Cell tem ganhado destaque. Apesar do seu potencial, fatores como o alto custo, a complexidade de produção e a necessidade de infraestrutura avançada limitam seu acesso global.
No Brasil, pesquisadores e hospitais buscam adaptar protocolos internacionais à realidade local, tornando a terapia mais viável para pacientes do SUS e da saúde suplementar.
Além das barreiras financeiras, questões regulatórias e logísticas também influenciam a disponibilidade da CAR-T. Novas estratégias, como células “off-the-shelf” e otimizações de fabricação, prometem ampliar o alcance e a segurança do tratamento.
Este artigo explora os desafios e oportunidades relacionados à acessibilidade da CAR-T, analisando iniciativas nacionais e tendências internacionais. O objetivo é apresentar uma visão completa sobre como essa terapia inovadora pode se tornar uma opção real para mais pacientes nos próximos anos.
O que é a terapia CAR-T e como funciona
A terapia CAR-T (Chimeric Antigen Receptor T-cell) é um tipo de imunoterapia personalizada que utiliza as próprias células do paciente para combater o câncer. Primeiro, as células T do sangue são coletadas e, em seguida, modificadas geneticamente em laboratório para expressar receptores específicos capazes de reconhecer antígenos presentes nas células tumorais.
Após a modificação, essas células são multiplicadas e reintroduzidas no paciente, onde passam a atacar de forma direcionada os tumores. Atualmente, a CAR-T é indicada principalmente para alguns tipos de leucemias e linfomas refratários ou recidivantes, sendo objeto de pesquisa em tumores sólidos.
O tratamento é considerado revolucionário por possibilitar respostas duradouras em pacientes que não reagiram a terapias convencionais. No entanto, exige monitoramento intensivo devido a efeitos colaterais potencialmente graves, como síndrome de liberação de citocinas e neurotoxicidade.
Por seu caráter personalizado, a terapia demanda infraestrutura avançada, mão de obra especializada e logística complexa, fatores que contribuem para o seu alto custo. Pesquisas em andamento buscam expandir indicações e aumentar a segurança, abrindo caminho para novas aplicações clínicas.
Por que a CAR-T é tão cara
O alto custo da terapia CAR-T está relacionado à sua natureza altamente personalizada e à complexidade de produção. Cada tratamento envolve a coleta de células T do próprio paciente, modificação genética em laboratório especializado, expansão celular, testes de qualidade rigorosos e transporte em condições controladas.
Além disso, o acompanhamento pós-infusão exige internação hospitalar, monitoramento constante e manejo de efeitos adversos, como síndrome de liberação de citocinas e neurotoxicidade.
No Brasil, esses fatores se combinam com a dependência de laboratórios internacionais para produção de algumas células CAR-T, o que eleva ainda mais o valor final. Estimativas indicam que o custo de um único tratamento pode variar entre R$ 2 milhões e R$ 3 milhões, tornando a terapia inacessível para a maior parte da população sem cobertura de planos privados ou programas especiais.
Pesquisadores e instituições têm estudado maneiras de reduzir esses custos, como otimizar processos de fabricação, desenvolver células “off-the-shelf” prontas para uso e implementar produção nacional. A compreensão desses fatores é essencial para avaliar os desafios de acesso e as iniciativas que podem tornar a CAR-T mais disponível no Brasil.
Desafios de acesso à CAR-T no Brasil
O acesso à terapia CAR-T no Brasil enfrenta diversas barreiras, que vão além do alto custo do tratamento. A disponibilidade é limitada pela infraestrutura hospitalar e laboratorial, já que poucos centros possuem equipamentos e equipes especializadas para coleta, modificação e reinfusão das células T.
Aspectos regulatórios também influenciam: cada protocolo precisa ser aprovado pela Anvisa e por comitês de ética, o que demanda tempo e investimentos em documentação e ensaios clínicos. Além disso, a dependência de laboratórios internacionais para produção de células CAR-T ainda dificulta a escalabilidade e aumenta os custos logísticos.
No contexto do SUS, a incorporação de terapias de alto custo exige estudos de custo-efetividade e demonstração de impacto clínico relevante, retardando a disponibilização para pacientes que não possuem planos privados. A falta de conscientização e capacitação técnica em centros de tratamento também limita a identificação de pacientes elegíveis.
Por isso, o acesso à CAR-T no Brasil é, atualmente, restrito, sendo majoritariamente disponível em ensaios clínicos ou hospitais privados com programas específicos. Superar essas barreiras é fundamental para tornar a terapia uma opção viável para um número maior de pacientes.
Iniciativas e estratégias para ampliar a acessibilidade
No Brasil, diversas iniciativas estão em andamento para tornar a terapia CAR-T mais acessível à população, especialmente por meio da produção nacional e parcerias público-privadas. O Instituto Butantan, em colaboração com o Hemocentro de Ribeirão Preto e a Universidade de São Paulo (USP), desenvolveu unidades de produção próprias, como o Núcleo de Terapia Avançada (Nutera) e o Núcleo de Terapia Celular (Nucel).
Essas instalações têm o objetivo de reduzir significativamente os custos da terapia, estimando-se que o tratamento possa ser oferecido ao SUS por cerca de R$ 200 mil, comparado aos R$ 2,5 milhões praticados no mercado internacional.
Além disso, o Ministério da Saúde firmou um convênio com a organização americana Caring Cross para o desenvolvimento de tratamentos com células CAR-T, visando à produção local e à redução de custos. Essa parceria faz parte das ações do Complexo Econômico-Industrial da Saúde (CEIS) e do Novo PAC, com investimentos totais de R$ 330 milhões.
Essas iniciativas buscam não apenas reduzir o custo da terapia, mas também fortalecer a infraestrutura nacional, garantindo maior autonomia e sustentabilidade ao Sistema Único de Saúde (SUS). Com a ampliação da produção e a implementação de estratégias de acesso, a expectativa é que a terapia CAR-T se torne uma opção viável para um número crescente de pacientes no Brasil nos próximos anos.
Descubra como se preparar para a terapia CAR-T
A terapia CAR-T representa um avanço transformador no tratamento do câncer, mas seu acesso ainda depende de preparo clínico, infraestrutura adequada e acompanhamento especializado. Instituições de saúde, pesquisadores e profissionais precisam se atualizar sobre protocolos, ensaios clínicos e estratégias de produção nacional para oferecer a terapia de forma segura e eficiente.
Se você é médico, pesquisador ou gestor da área de saúde, entre em contato com especialistas e descubra como sua instituição pode se preparar para incorporar a CAR-T, garantindo que mais pacientes tenham acesso a esse tratamento inovador e de ponta.
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